Cimnema + Rock, dupla dinâmica

1 – Dazed & Confused (Idem, 1993) 

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Fade up: um Pontiac GTO, 1970, serpenteando supercool pelo pátio ensolarado da Lee High School, Austin, Texas. Um baixo anuncia Sweet Emotion como companheira mais-que-perfeita da imagem e em letras grandes na parte inferior da tela surge o título: “Dazed and Confused” (o locutor brasileiro anuncia com seriedade risível o título em português: “Jovens, Loucos e Rebeldes”)… Último dia de aulas antes das férias de verão de 1976. Calouros, veteranos, atletas, nerds, losers, babacas, gatinhas, super-carros e uma trilha sonora sensacional fazem deste o filme high school por excelência. O diretor Richard Linklater (que esteve em cartaz há pouco tempo com Escola de Rock) promove uma verdadeira ode à adolescência sem esbarrar em nenhum momento no piegas (como O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas, início dos ‘80s) ou no “excesso de realidade” (como Kids, 1995). Retrata todos os personagens de uma maneira crua, mas inevitavelmente poética e sobretudo afetiva, sem julgamentos clericais. Ou seja, mesmo os losers e os babacas são mostrados com uma empatia insuspeita do diretor, que deixa entrever a possibilidade de redenção e/ou evolução para suas vidas miseráveis. Mas não espere um filme com aquele roteiro convencional, tipo início-meio-fim. Dazed & Confused tem como fio condutor um dia seminal na vida dos personagens retratados, os formandos às portas da vida adulta (ir ou não pra universidade, pagar contas e blá-blá-blás semelhantes) e os calouros à beira da perda da inocência. Não se preocupem os céticos de plantão, não se verá neste filme “adolescentes cometendo erros para no final aprenderem uma grande lição”. O filme é muito divertido e Linklater o recheou com personagens tão carismáticos e cativantes que você (mesmo sendo um papa do sarcasmo) fica sem saída, senão se identificar, simpatizar e embarcar na engraçada (e adorável) viagem de volta ao tempo em que Peter Frampton era deus e que Rock & Roll all nite era a canção de onze entre dez adolescentes. Você me pergunta: como se identificar com personagens de uma outra cultura, de um tempo em que a maioria de nós nem mesmo era viva? Eu respondo: você se pergunta isso quando ouve Whole Lotta Love e sente que aquele riff explica boa parte da sua existência? Certas coisas são universais e atemporais, e tentar conceituá-las racionalmente só faz acentuar o quanto de emocional há em nós. Ainda bem! Melhor momento da filmografia de Linklater até o momento. Infelizmente, ainda não há versão em DVD para a região 4. Tão essencial que já dediquei uma matéria inteira a este filme (para os raros interessados, ela está postada no Wiplash, na seção “matérias & ensaios”);

 


2 – This is Spinal Tap (Idem, 1984) 

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Dos filmes com tema diretamente associado ao rock, este é sem dúvida o mais legal. É a estória de uma fictícia banda de rock, suas aventuras e desventuras a caminho da decadência e do colapso… eles vão de uma banda beat de Rhythm & Blues, passam por uma fase psicodélica e chegam ao zênite no Hard Rock/Heavy Metal… nessa “caminhada” eles batem em cada clichê do rock com um deboche indisfarçável, mas, ao mesmo tempo, o diretor Rob Reiner (que depois faria xaropes lamentáveis como “EDTV” e “A Estória de Nós Dois”) deixa entrever um afeto genuíno pelo gênero… O filme é uma farsa do início ao fim, tanto na forma (um falso documentário), quanto no conteúdo (sobre uma falsa banda de rock), mas as situações e os personagens são tão absurdos e hilariantes que até beiram o crível (em especial a cena em que a Banda comparece a uma tarde de autógrafos para… ninguém!)… ajuda também o fato de que todos os protagonistas já haviam tido algum tipo de envolvimento com bandas de rock nos ‘60s e ‘70s, então o jargão que os caras usam nas cenas de ensaio, shows e entrevistas não é aquele diálogo estudadinho e sem feeling de filmes-rebotalho como Rock Star… eu assisti Spinal Tap no cinema há uns 15 anos atrás, na época do lançamento, e até hoje ele não me sai da cabeça… talvez tenha me impressionado tanto pelo fato de que na época eu tinha 15 anos, uma idade em que muitas coisas nem tão impressionantes costumam impressionar; enfim, não sei se assistindo hoje teria a mesma opinião e ficaria tão fissurado com o filme… como ainda não tive a oportunidade de colocar isso em cheque, ele continua no meu top 20… fato extra-movie: o legal é que lá fora o filme foi tão bem sucedido que a banda fictícia acabou se tornando real e os caras do filme se juntaram brevemente para uma série de concertos… A trilha sonora original é com canções compostas e produzidas especialmente para o filme e interpretadas pelos alucinados personagens. Outro filme que ainda não possui versão em DVD para a região 4;  


3 – Help! (idem, 1965) 

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Oh, man, e daí que o filme não tem roteiro? E daí que o filme não tem, aliás, nada que beire o racional? This is The Beatles, e em cores! Imagens iconográficas aos quilos aqui, como a cena de abertura, com os Fab cantando Help!, ou ainda a adorável pantomima na neve durante a execução de Ticket To Ride; nas Bahamas cantando Another Girl (com a famosa cena em que Paul “toca baixo numa moça”… huauhahuauha); ou ainda no estúdio, gravando You’re Gonna Lose That Girl, enfim… O diretor Richard Lester deve ter tido um trabalho dos diabos pra juntar os cacos do filme, porque fica evidente na tela que J, P, G & R andavam fumando 25 horas por dia… mas nesse ponto da História, os Beatles já eram tão inquestionáveis que mesmo apatetados, eram adoráveis (ou será que é exatamente por isso que eles eram adoráveis?)… Algumas cenas dispensáveis, como Ringo de cuecas samba-canção… defendendo o indefensável: mesmo estas cenas foram (e devem ser!) encaradas como parte de mais uma deliciosa palhaçada… e calma lá, intelectuais de plantão, se a gente pensar no contexto do anos 60, em que a voga eram os filmes glorificadores da boa aparência do jovem americano (o que eram aqueles filmes de “praia”????? pior: o que eram aqueles filmes de Elvis na praia, ganhando todas as gatas, cantando canções-engov e pulando de penhascos em Acapulco???? Blargh!), a gente mais uma vez vai ter que dar vivas para uma Banda que no auge da fama permitia-se mostrar de cuecas samba-canção, numa clara postura iconoclasta…. infelizmente, ainda não há versão em DVD para a região 4, mas não se desesperem, fãs… em breve, provavelmente, será lançada uma versão especial de aniversário, nos mesmos moldes de A Hard Day’s Night, já que em 2005 Help! completará 40 anos… uma fantástica viagem aos anos 60;


4 – Fantasma do Paraíso (Phantom of the Paradise, 1975)

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Brian de Palma depois entraria naquela doideira de querer ser o novo Hitchcock, mas em 1974 ele ainda tinha alguma originalidade… juntou Fausto, glam rock, rockabilly, horror fake, Fantasma da Ópera e saiu-se com uma alucinada sátira ao rock… é mais um filme que teve canções compostas e produzidas especialmente para sua trilha sonora original, sendo interpretadas pelos personagens. Acabou eclipsado por The Rocky Horror Picture Show, que foi feito um ano mais tarde, mas no acerto das contas, o próprio diretor de Rocky Horror confessou que Phantom of the Paradise havia sido referência imediata… O filme é uma piração visual do início ao fim. No quesito roteiro, há umas escorregadas brabas, especialmente na misturada por vezes indistinta que há entre as alegorias de Fausto e Fantasma da Ópera, mas nada que retire do filme o tom de farsa e diversão travestida de suspense. Infelizmente, ainda não está disponível em DVD para a região 4. (dica: não deixe de ler a ótima matéria sobre Fantasma do Paraíso, de autoria do Márcio Ribeiro, o Creedance, postada no Wiplash.net);


5 – Corrida Contra o Destino (Vanishing Point, 1971)

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É o Road Movie por excelência. Não confundir com a versão horrorosa que algum boiola dos ‘90s fez deste clássico de 1971, dirigido por Richard Sarafian. Kowalski, um ex-piloto de corridas, tem como missão pegar um carro em Denver e entregá-lo em San Francisco, no prazo recorde de quinze horas… como combustível, enche a cara de barbitúricos e parte na sua insana peregrinação… em sua jornada de velocidade e fúria, acaba sendo guiado por um DJ negro (Super Soul) que ao sintonizar a freqüência de rádio da polícia, fica sabendo que tem um sujeito deixando os tiras na poeira pelas estradas de Tio Sam, transformando o alucinado fugitivo em Kowalski, the last american hero… O que tem de heróico um sujeito pegar um carro e sair como louco pelas highways costa-a-costa dos USA, botando as polícias de um monte de estados no seu encalço??? E se a gente falar que esse sujeito ainda por cima protagoniza vários momentos duvidosos, como quando, desarmado, põe uma dupla de assaltantes gays para fora de seu carro a pontapés, numa clara (e dispensável) afirmação do macho power? Danem-se os corretinhos psicológicos… para os infernos com o politicamente correto e com a coerência… lembre-se, o filme foi feito em 1971, durante o auge do ácido e da contracultura nos USA, e tudo que afrontasse o “sistema” estava valendo… e se alguém quer coerência, que vá ver Dumbo… John Alonzo providencia uma cinematografia amadoristicamente impecável, quase hipnótica, com os granulados das telas espalhando poeira por todos os quadros. A trilha sonora é imbatível, com Clapton & Duane Allman, Jackson Browne e Delaney & Bonnie (estes últimos inclusive tendo breve aparição no filme, como os J Hovah’s Singers). Na minha opinião, é tão ou mais cult que Easy Rider, e certamente mais divertido e visualmente interessante.. o final é a versão alegórica para a geração que cantava “I hope I die before I get old” (“espero morrer antes de envelhecer”) com o Who… é o mais claro exemplar de que se houve um tempo em que se podia esperar o imprevisível de Hollywood, isso foi nos anos 70… Ainda não há versão em DVD para a região 4;


6 – O Último Concerto de Rock (The Last Waltz, 1975)

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Pois é, não é do meu Top 5, mas talvez seja o melhor filme de rock de todos os tempos, ainda que eu seja avesso a generalizações. É o típico caso em que o produto final sai melhor que a encomenda. Martin Scorcese pretendia fazer um filme sobre o encerramento das atividades do The Band, e acabou sem querer retratando o swan song da geração flower power… o filme é um pouco lento para os mais desavisados, mas uma vez que você entra no clima (umas duas geladas, uns três tapas, ou quem sabe uma fanta, resolvem esse problema), presencia momentos emocionantes às toneladas… Neil Young, Bob Dylan, Muddy Waters, Van Morrison na sua fase Free Willy (mas cantando com todas as vísceras, como sempre!), enfim… induvidosamente é o concerto de rock mais bem filmado da história e de qualquer forma obrigatório pra quem curte o gênero! Scorcese aqui prestou um grande tributo ao Rock, e mais recentemente se dedicou a fazer um documentário-monstro sobre o pai desse gênero, o Blues (que infelizmente ainda não deu as caras por cá). A nova versão relançada recentemente em DVD (também para a região 4), conta com um documentário bastante legal, no qual Scorcese, Robbie Robertson e os demais membros da Banda dão uma pala sobre a colossal tarefa que foi a feitura do filme, especialmente para a Banda, que teve de dar um concerto com algo em torno de oito horas seguidas. Obra-prima!


7 – Hair (Idem, 1979)

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O único musical propriamente dito a figurar na minha lista. Ok, a versão cinematográfica é completamente fora de seu tempo – um filme sobre hippies lançado em 1979 (???). Mas cinema transcende à lógica, e o filme é dos melhores de Milos Forman… maravilhosas cenas coreografadas por Twayla Tharp (que fez até cavalos dançarem), algumas interpretações insuperáveis (Treat Williams, depois de seu inesquecível Berger, nunca mais compôs nenhum personagem decente) e uma trilha sonora que dispensa comentários. De especial nota, a cinematografia: vários momentos memoráveis, desde o giro insano de câmera focalizando Ren Woods interpretando “Aquarius” no Central Park, até a inesquecível seqüência final em que Berger embarca para o Vietnã ao som de “Let the Sunshine In”. Fundamental, mesmo pra quem não curte muito o tal do flower power. Fez grande sucesso aqui no Brasil, mas curiosamente ainda não teve versão em DVD por aqui lançada;


8 – Sem destino (Easy Rider, 1969)

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Nem vou falar muito sobre este filme, tantas foram as odes que já pipocaram por aí. É um filme superestimado, sem dúvida, mas culturalmente inevitável e indispensável para quem curte rock. Também aqui, imagens iconográficas aos quilos. Peter Fonda (outro que nunca mais fez um personagem que prestasse) e Dennis Hopper montam em suas Bikes a caminho do nada, com o alucinado russo John Kay do Steppenwolf rosnando Born to be Wild ao fundo, praticamente criando a trilha sonora para toda uma geração. Há uma curiosa aparição do famoso Phil Spector como o drug dealer de Los Angeles. Jack Nicholson também faz uma breve aparição, e com toda a brevidade, rouba a cena. No caso de Easy Rider, é quase unanimidade, todos dizem que o filme é datado e perdeu a sua relevância nos dias atuais. Humm, será mesmo? Se a gente pensar que o final emblemático do filme (na época considerado pela crítica especializada como excessivamente previsível) poderia muito bem ser usado como cena de abertura para Tiros em Columbine, do hoje famoso Michael Moore, vai perceber que Tio Sam não mudou muito nesses trinta e poucos anos. Ou seja, a forma pode até ter ficado esmaecida, mas o conteúdo permanece tão atual e relevante quanto na época do lançamento do filme. E aí, entendidos? A versão que vi é exatamente esta retratada na foto, e tem como extra apenas um curto making of e algumas entrevistas com Fonda e Hopper;


9 – Loucuras de Verão (American Grafitti, 1973)

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Ah, os anos 60. Tal e qual Dazed & Confused (filme para o qual American Grafitti foi influência direta!), Loucuras de Verão não tem um roteiro no esquema início-meio-fim. É um lance meio gonzo (ainda que gonzo seja um “adjetivo” que certamente não existe na cartilha de George Lucas), com a câmera perseguindo vários personagens ao longo da última noite do verão de 1962. Diálogos hilariantes, irrelevantes e sem sentido – como quase todos que povoam nossa existência por volta dos 15, 16 anos -, revelam personagens emblemáticos, mas não “estereotipados” e uma trilha sonora sensacional, providenciada pelo então famoso DJ Wolfman Jack. Lucas promove um daqueles raros exercícios de nostalgia sem descambar para o sentimentalismo xarope. Vendo esse filme hoje, aliás, é inevitável um pensamento: que diabos se passava na cabeça de George Lucas naquela época? O cara tinha feito THX 1138, uma alucinadíssima ficção científica na qual quase todos os personagens são geneticamente assexuados, e em seguida vem com um filme sobre a última noite do verão de 1962, sem falar que o próximo projeto de Lucas seria um tal Stars Wars… oh, shit, man!…. Em Loucuras de Verão, entretanto, você não vai encontrar nada espacial, ao contrário, é um filme terra-terra, pra quem curte música, carros e um quê de inocência e nonsense…. No elenco comparecem várias estrelas em início de carreira, como Harrison Ford, Richard Dreyfuss e o futuro diretor oscarizado Ron Howard. Infelizmente, ainda não há versão em DVD para a região 4;


 
10 – Quase Famosos (Almost Famous, 2000)
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Ok, esse todo mundo conhece, mas e daí? O filme deixa de ser indispensável por isso? Na minha opinião, é um pouco inocente demais – um filme sobre uma banda de rock dos ‘70s sem uma “nuvem de fumaça” sequer? – mas, afinal, o tema central não é exatamente esse, a perda da inocência do protagonista? É um filme muito, muito legal, com interpretações estelares de todos os atores e atrizes, notadamente Patrick Fugit (que interpreta o jovem William, alter-ego de Cameron Crowe), Billy Crudup (como o guitarrista genial da fictícia banda Stillwater) e Kate Hudson (como a adorável “band-aid” Penny Lane). Méritos para Gail Levin que soube escolher os atores certos para os papéis certos, e para Cameron que soube dar aos escolhidos uma direção segura mas não invasiva, criando uma evidente atmosfera de camaradagem e conforto. Isso fica evidente no contracenar de atores iniciantes, como o próprio Fugit, com monstros consagrados na arte de interpretar, como Frances McDormand (não me lembro quem faturou o prêmio da Academia neste ano, mas não consigo pensar em alguém que tenha tido melhor desempenho como atriz coadjuvante em 2000)… quanto à cinematografia, vários momentos memoráveis, como por exemplo a busca frenética de William por Penny Lane numa Nova Iorque imersa em táxis, e o take final, com o ônibus na estrada ao pôr-do-sol e Tangerine, do Led Zeppelin, rolando na trilha incidental… Procure ver a versão do diretor, com uns 40 minutos a mais, lançada apenas em DVD. Vale uma pala sobre a versão em DVD para a região 4. A versão lançada é dupla, contendo a versão estendida (director’s cut) e a versão que passou nos cinemas (theatrical cut)… depois de ver a versão do diretor, sinceramente, a versão editada que passou nos cinemas se torna completamente dispensável. Seria mais legal um DVD recheado de extras contendo vários making of, entrevistas, mais cenas que não entraram na edição original, enfim… Aliás, quanto aos extras, uma vergonha: nenhum deles vêm legendados (uma lástima, um produto ser lançado num país de língua latina e vir somente com opção de áudio em inglês, sem legendas… o que a gente é? Australianos? Neo-Zelandeses? Vá te catar, Columbia!);


11 – Os Reis do Iê-Iê-Iê (A Hard Day’s Night, 1964)

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Os Beatles enchem a tela com nonsense suficiente pra fazer a gente não entender o humor britânico até hoje, mas isso importa quando você tem os Mop Tops, no auge da beatlemania, interpretando jóias como If I Fell e Can’ t Buy me Love? Dizem que o filme estabeleceu standards para MTV e quetais… eu não jogaria tamanha culpa nos ombros no diretor Dick Lester… muitos pretendentes à inteligência gostam de dizer que “o filme é datado”, “um produto de sua era”, e argumentos (???) imbecis na mesma linha… já me dá engulhos o uso indiscriminado de termos como “datado”… o filme envelheceu com a mesma graça e charme da música dos Beatles no mesmo período… e além disso, se o filme é um produto de sua era, vivas ao Diretor Richard Lester que conseguiu capturar toda a magia e loucura que cercava os Beatles naquele primeiro momento de megaestrelato, era exatamente essa a intenção do diretor, criar um instantâneo estilizado da realidade… de qualquer forma, alguém deixa de ouvir Revolver ou Rubber Soul porque alguém supostamente entendido disse que são discos datados??? Blargh… a versão do filme lançada em DVD é dupla, com uma tonelada de extras (todos legendados, viva!) sobre a produção e, pra falar a verdade, são quase mais interessantes que o próprio filme. Fundamental;


12 – Alta Fidelidade (High Fidelity, 2000)

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Ok, eu não sou muito fã do middle aged canastrão John Cusack, mas admito que em 2000 era difícil achar outro ator que reunisse as “qualidades” necessárias para interpretar uma personagem tão cheia de idiossincrasias. Assim considerando, Cusack até se sai bem… Mas ninguém vai me convencer de que Jack Black é tão cool quanto vem sendo pregado aos quatro ventos… eu acho no mínimo curioso, todo mundo detesta o Jim Carrey porque, não importa o papel, ele é sempre o mesmo “careteiro”, mas adoram o Jack Black… cá entre nós, o cara é sempre a mesma coisa, aquele tipo irascível com tiradas mais que previsíveis… será que é porque ele tem uma banda de rock que é mais simpático ao público? Pode até ser, mas isso não o torna menos pior como ator… enfim, pra mim ele é apenas uma versão piorada do falecido Chris Farley… No que diz respeito ao filme, há alguma deturpação do excelente livro de Nick Hornby, transferindo o cenário original da estória de Londres para Chicago, mas no final das contas o tema central é tão universal e atemporal que mesmo este “detalhe” não estraga o prazer de assistir as desventuras sentimentais do loser-mor, Rob Gordon, a caminho dos quarenta (não dá pra entender também o porquê de terem mudado o sobrenome do personagem, que no livro é Fleming… será que o nome Fleming é britânico demais?). Tim Robbins, que faz um Ian exotérico-patético-superfucker, e Todd Louiso, que faz Dick, o nerd amigável, roubam a cena. A trilha sonora ajuda. Há versão em DVD para a região 4, mas ela vem apenas com o filme e com um featurette sem legendas.


13 – Picardias Estudantis (Fast Times at Ridgemont High, 1982)

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Outro que era melhor quando jovem, Sean Penn está impagável como Jeff Spicoli, o surfista stoner, neste que foi até Dazed & Confused o meu filme high shool preferido. É também o primeiro momento de destaque de Cameron Crowe, que aqui aparece como escritor da estória e roteirista do filme. Foi porta de entrada para muita gente, desde o horroroso Nicholas Cage até os bons Eric Stoltz e Jennifer Jason Leigh. Trilha sonora incomum, juntando Go-Go’s com Grahan Nash, Poco com Oingo Boingo, Billy Squier com Jimmy Buffett. Não espere nada sério, é apenas um filme muito legal;


14 – Os Cinco Rapazes de Liverpool (Backbeat, 1994)
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Talvez o melhor filme digamos mainstream sobre os Beatles. Ainda assim, guarda um quê de originalidade ao escolher retratar um período pouco visitado na estória da Banda, qual seja seus estágios embrionários, assim como a possível estória da amizade entre Stuart Sutcliffe e o imberbe e quase punk John Lennon. Quase todos os personagens da estória recebem excelente caracterização, especialmente Lennon, que é presenteado com uma estupenda e impressionante personificação feita pelo ator Ian Hart, à exceção de Sutcliffe que é tristemente interpretado pelo lamentável Stephen Dorff (devia ser Dork!)… Trilha sonora original com canções clássicas como Long Tall Sally, Rock & Roll Music e Carol interpretadas por uma Banda especialmente montada para o projeto, incluindo gente como Dave Grohl (então no Nirvana), Thurston Moore (Sonic Youth) e Dave Pirner (Soul Asylum). Há versão em DVD para a região 4, mas esta vem com apenas breves entrevistas com o diretor e com o elenco, sem extras interessantes. De qualquer forma, excelente diversão;  


15 – Ainda Muito Loucos (Still Crazy, 1998)

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Alguns apressadinhos da crítica insistiram em dizer que este era o Quase Famosos inglês… mas este filme é de 1998 e Almost Famous é de 2000… quem estaria imitando quem? Na verdade, não consigo ver relação nenhuma entre estes dois ótimos filmes… se há algum filme a ser lembrado ao se ver Ainda muito loucos, este é This is Spinal Tap (embora Still Crazy seja mais leve e inevitavelmente mais atual)…. O fato é que este filme sobre o comeback de uma banda setentista fictícia chamada Strange Fruit é sensacional, engraçado até a última tirada e recheado de personagens cativantes, hilariantes e falivelmente humanos – em especial a personagem de Ray, o vocalista envelhecido que ainda se julga um célebre rockstar (a cena em que o entregador de pizza pede a assinatura de Ray no recibo e ele se julga assediado por um fã em busca de autógrafo é apenas uma dentre várias grandes sacadas do filme). A trilha sonora original tem canções compostas e produzidas especialmente para o filme e são interpretadas pelos personagens. É mais um ótimo filme inexplicavelmente subestimado. Versão em DVD para região 4 enxuta, sem extras. Ainda assim, vale a procura. Imperdível;


16 – Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986)
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Clássico Teen Movie dos ‘80s e melhor momento da carreira do insosso Matthew Broderick, que aqui brilha com verve e cinismo na medida (até ganhou o Globo de Ouro de 1986 pela sua atuação). Não é um filme sobre rock propriamente falando, mas vai dizer que você não venderia a alma para estar naquela parada cantando Twist & Shout no lugar de Ferris? Se assim não for, te aconselho a verificar o pulso e tocar a jugular para ver se ainda está mesmo vivo… Versão em DVD para a região 4, sem extras interessantes… melhor sessão da tarde de todos os tempos;


17 – Forrest Gump, o contador de estórias (Forrest Gump, 1994)

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Caso você não tenha sentido nada ao ver Jenny subir no parapeito do trocentésimo andar e ficar à beira do precipício com o solo de Freebird, do Lynyrd Skynyrd, explodindo na trilha incidental, sinceramente é de se perguntar: você gosta mesmo de cinema e rock? E este é apenas um dentre vários outros momentos monumentais nesta obra-prima de Robert Zemeckis (que, aliás, dificilmente conseguirá repetir a dose). Como bônus, você tem o desempenho monstruoso de Tom Hanks como Forrest, o que lhe valeu o Oscar de melhor ator daquele ano. Trilha sonora espetacular, com Creedence, Beach Boys, Buffalo Springfield, dentre outros monstros da música. A versão em DVD é das melhores disponíveis no mercado nacional, com extras aos quilos, todos devidamente legendados e interessantes. Uma preciosidade;


18 – Fear And Loathing in Las Vegas (Idem, 1998)

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Aqui é meio polêmico. Muitos odeiam este filme, que é uma versão cinematográfica da biografia fictícia de Raoul Duke, alter-ego de Hunter Thompson, um alucinado jornalista que tinha como especialidade o velho esporte de ingerir toda e qualquer droga já sintetizada e produzida pelo homem… A missão original do jornalista esportivo Duke é cobrir uma etapa do campeonato de motocross que vai rolar em Las Vegas, mas algumas doses e muitas loucuras depois, o cara acaba sendo convidado por um policial para ser o representante da imprensa na “Convenção Distrital de Autoridades que combatem o tráfico de narcóticos e drogas perigosas”… ninguém mais adequado, de fato, huauha…. deu pra imaginar a doideira, não? Pois é, junte-se a isso o fato de que quem dirige a película é o Sr. Terry Gilliam, diretor do piradíssimo Brazil e do excepcional 12 Macacos… você pode até não gostar do filme, mas vale assisti-lo mesmo assim, nem que seja para ver Johnny Depp careca e Benicio Del Toro personificando o advogado Dr. Gonzo numa piração impagável… trilha sonora fantástica e Las Vegas, que em si já é um cenário pra lá de alucinógeno. Não lembro de ter visto versão em DVD para região 4, mas vale a procura pelo velho e bom VHS;


19 – Woodstock (Idem, 1970)

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É a versão cinematográfica do maior festival de música de todos os tempos. Alguns momentos memoráveis – como Hendrix e sua versão do hino nacional dos USA, The Who, Crosby, Stills & Nash, enfim… Ganhador do Oscar de melhor documentário em 1970, o filme estabeleceu parâmetros para os “rockumentários” que se tornariam comuns nos anos 70/80… a versão que tenho é a do diretor, onde são reveladas novas imagens e entrevistas com moradores da região e artistas participantes do festival… é difícil assistir o filme de uma só “sentada” – sem conotações sexuais, huahua – Woodstock tem algo em torno de 225 minutos de duração e em alguns momentos se perde em excessivas divagações sobre o lifestyle da época e sobre os canábicos hábitos dos quase 400 mil presentes… Mas não há nada de errado com isso, se houve uma época em que o excesso era a regra, foram os anos 60/70, então o filme nada mais é do que um instantâneo daquele alucinado tempo, uma radiografia dos anos em que o sonho costumava não se distanciar tanto da realidade. Há versão em DVD para a região 4, mas o filme, pela sua importância histórica, ainda carece de uma versão definitiva;


20 – Atrás daquele beijo (Blow Up, 1966)

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Outro filme que não é estritamente sobre rock, mas merece figurar na lista assim mesmo. Explica-se, o diretor Michelangelo Antonioni escolheu como cenário para sua estória de suspense “fotográfico” a Londres de 1966… enquanto o protagonista perambula pelas ruas e vielas da Swinging London, acaba topando, sem mais nem menos, com uma jam dos Yardbirds… Jeff Beck destrói sua guitarra num acesso de Pete Townshend, e um chapadasso Jimmy Page apenas mantém as vibrações, detonando Train Kept A Rolling (aqui travestida de Stroll On) com tanta virulência que David Hemmings, o protagonista, e você ficam ali, pasmos, estupefatos diante daquela cena… O filme pode parecer lento para pessoas acostumadas com os Con Airs e Duros de Matar da vida, mas uma vez que você se disponha a assistir um filme menos previsível, verá momentos de rara beleza na telinha – em especial a cena em que Hemmings, na revelação das fotos, percebe algo não está muito “certo” e começa as ampliações… esta cena, aliás, seria homenageada 16 anos depois por Riddley Scott, que no clássico Blade Runner faz o protagonista Rick Deckard usar o mesmo esquema de ampliações, com uma tecnologia evidentemente mais avançada… Blow Up! é fundamental, mesmo para você que está em busca apenas de filmes sobre rock… influencial até o último quadro e merecidamente! Há versão em DVD para a região 4, que vem com a opção de áudio isolado para a fantástica trilha sonora incidental composta por Herbie Hancock, mas sem extras relacionados à produção.


Pala final

Isso aí. Esses são meus vinte filmes absolutos sobre rock, ou relacionados ao gênero. Como toda lista guarda um caráter muito pessoal, provavelmente haverá quem me questione sobre a ausência de The Doors, Velvet Goldmine, The Commitments, Os Irmãos Cara-de-Pau, Tina, King Creole, The Stone Age, Sementes de Violência, O Selvagem, No Balanço das Horas, Rebelde sem Causa, Febre de Juventude, Magical Mystery Tour, Yellow Submarine, Let It Be, Rock’ n’ Roll High School, School of Rock, Pleasantville, Detroit Rock City e principalmente The Rocky Horror Picture Show (este último sendo considerado pelos tais “conhecedores” como talvez o mais cult de todos os filmes associados à musica). Mas é aquela coisa, ainda que eu ache alguns destes filmes merecedores de figurarem em qualquer lista de “melhores filmes sobre rock, ou relacionados ao gênero” (especialmente os filmes dos Beatles e King Creole, que tem o melhor desempenho de Elvis na telona), pelo menos até o presente momento eles não me impressionaram o suficiente para entrarem na “minha” lista. Mas esta não é uma lista definitiva, amanhã mesmo eu posso mudar de idéia e incluir algum desses que ficou de fora, tirando algum que entrou no top 20, ou ainda, ver algum filme que não tive a oportunidade de assistir e achá-lo genial… Ou seja, alguns filmes que citei neste parágrafo são tão indispensáveis quanto os outros vinte que escolhi (e quem sabe até melhores?) e valem a atenção de qualquer interessado em cinema + rock.

É legal lembrar também que estes filmes que figuram na lista não abrangem a categoria “documentários” e “shows”, por isso não comparecem, dentre outros, The Kids Are Alright, The Song Remains the Same, The Rise and Fall of Ziggy Stardust, Gimmie Shelter, Wattstax, Don’t Look Back, Beatles Anthology e Allman Brothes Band Live at The Beacon. Em breve, talvez eu faça a minha lista abrangendo estas categorias.

Boa diversão!

fonte: http://whiplash.net/materias/especial/000594.html
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